De Volta Pro Futuro

Meu primeiro patrão, Valentin Majer - um enérgico iugoslavo -, dizia que devemos olhar o passado para não repetir os erros no presente e pensar no futuro para saber o que fazer no presente.

É até irônico pensar sobre o passado, porque tanta coisa mudou nestes últimos 45 anos que estou no mercado! Começando pelo país de onde veio Valentin, a Iugoslávia - que nem existe mais -, e terminando com o radical incremento de qualidade que vemos hoje na flexo, entregando um resultado que eu pessoalmente nunca sonharia quando comecei no ramo.

Deixando o passado para uma outra coluna, hoje quero pensar sobre o futuro, porque estou certo que isso pode nos ajudar muito no planejamento de onde investir, onde focar e onde não perder tempo.

No futuro, ao andar pelos corredores de um mercado, encontraremos as tradicionais embalagens de cartonagem impressas em offset e embalagens flexiveis impressas em flexo e roto, mas veremos algumas coisas que não são usuais hoje:

Embalagens flexiveis impressas digitalmente

Serão usadas para produtos de que vendem pouco e não justificam toneladas de impressão. Ou produtos cuja vida útil na prateleira é tão curta (em virtude de sua validade ou de promoções comerciais) que justifica diversas pequenas impressões ao longo de um ano em vez de uma única grande impressão anual, por exemplo.

Outra situação: até pouquíssimo tempo atrás um frabricante de biscoitos podia imprimir 20 toneladas de embalagem sabor chocolate, mas hoje é levado a imprimir apenas 2 toneladas de 10 sabores diferentes, porque o publico dele quer assim. Hoje estas 2 toneladas hipotéticas que descrevo aqui ainda compensam ser feitas em flexo, mas em pouco tempo será mais vantajoso em digital.

A impressão digital com dados variáveis será um padrão para compras feitas online. Da mesma forma que hoje é banal comprar uma geladeira na loja e recebê-la direto do fabricante com diversas etiquetas mostrando nosso nome (porque ela foi construida sob demanda depois de nossa compra), no futuro tudo - ou quase tudo - que comprarmos online virá em embalagens que terão nosso nome, endereço e em alguns casos até nosso retrato.

Volta da força da venda a granel

Muitos produtos que compramos hoje em embalagens serão vendidos a granel, como biscoitos, massas, grãos, conservas e até produtos de limpeza, entre muitos outros. A demanda para esta volta ao passado, onde tudo era vendido a granel em armazens de “Secos e Molhados” virá dos movimentos ecologicamente responsáveis que já combatem as embalagens que produzimos por considerá-las pouco sustentáveis, independente do quão “ecologicamente corretos” a gente seja.

Na Alemanha já é extremamente comum o consumidor retirar suas compras da embalagem dentro do próprio supermercado, e livrar-se ali mesmo delas, antes de ir para casa.

Embalagens animadas

Feitas em um tipo de substrato que – eletrificado – terá animações e mostrará imagens em movimento. Essas embalagens mágicas brigarão pela sua atenção quando passar em frente delas, possivelmente identificando-o pelo IP de seu celular e escrevendo seu nome numa animação, para depois demonstrar porque você deveria comprar. Produtos de alto valor agregado e – consequentemente – mais caros, usarão este recurso.

Embalagens comestíveis

A divertidíssima idéia criada por Monteiro Lobato está proxima da realidade e provavelmente será feita em fornos dentro das próprias empresas alimentícias. Recentemente, a lanchonete Bobs usou uma embalagem feita de fécula de batata para envolver seus hamburgueres, e sugeria que você a comesse junto com o sanduíche.

A tendência é que estas embalagens sejam feitas em um substrato sem gosto de milho ou algas marinhas, por exemplo, e os textos e imagens nela serão gravadas por matrizes de metal utilizando um tipo de tinta comestível com aromas (chocolate, morango etc). Nas gondolas ficarão protegida por uma película plastica que evitará contaminação.

Tenho certeza de que você está rindo da idéia da embalagem animada e da comestível, eu mesmo rio quando imagino. Mas uma rápida pesquina no Google vai te mostrar o quanto isso já é realidade.

Além disso, gostaria de contar uma história: conheci um americano veterano da 2ª Guerra Mundial que em uma palestra contou que o oficial superior dele disse, em 1942, que “no futuro teríamos caixas nas quais veríamos imagens de pessoas em movimento e com som”, e que “no futuro o governo iria enviar antenas de radio para fora do planeta Terra para que elas transmitissem os sinais de comunicação para o mundo inteiro”. Todos riram, mas pouco tempo depois testemunharam a criação e popularização da televisão (a caixa) e o lançamento dos satelites (antena fora da terra).

Diante deste cenário, creio que a missão é nos especializarmos cada vez mais, buscando máxima eficiência no que fazemos, para nos mantermos competitivos em um mundo repleto de novidades. Identifico quatro frentes principais que devem nos guiar rumo ao futuro:

Qualidade

Apesar do incrível avanço da flexo nas últimas décadas, ainda vamos melhorar muito. Novas tecnologias de matrizes, novas tintas, impressoras, cilíndros anilox e substratos vão elevar a qualidade para níveis surpreendentes. Sem querer enveredar numa antiga polêmica, mas já fazendo isso, eu vejo a flexo captando uma parte enorme do que hoje é feito em rotogravura, e ganhando espaço no mundo da cartonagem.

Economia e redução de custos

O exercício diário do convertedor é buscar economia em todas as frentes (custos fixos, custos variáveis, insumos etc), para que os ganhos de produtividade se convertam em preços mais baixos aos compradores. Essa é uma tendência mundial, onde a China e especialmente os EUA são os grandes exemplos: ano a ano a impressão nestes países é mais barata, sem comprometer a qualidade. Custos baixos serão a chave para competir com as novas tecnologias, especialmente a digital – cujo preço despencará nos próximos anos.

Velocidade

O aumento da velocidade de impressão, do desenvolvimento de projetos, da logística e outras variáveis é chave para viabilização de parte das economias do item anterior mas também em manter e aumentar a atratividade da flexografia para o end-user.

Temos clientes avançados neste quesito, que fiscalizam a velocidade de impressão com cronometro na mão, usando sempre o máximo da máquina, além de controlarem paradas de máquina e tempo de setup com muito rigor.

Um deles tem em seu monitor um alerta automatico que o avisa quando a impressora para, com um sinalzinho verde e um cronometro dentro. Depois de dez minutos de parada, o alerta muda para vermelho e dispara um alarme. Daí este cliente, que é o dono da empresa, liga para a produção e interfere na situação.

Sustentabilidade

Utilização de substratos “verdes” (biodegradáveis, produzidos de extratos vegetais etc), tintas a base de água e componentes não agressivos ao meio ambiente, cadeia produtiva limpa, certificações sócio-ambientais e outras iniciativas ligadas a sustentabilidade se radicalizará no futuro. O impressor que não se ocupar deste item está fadado a desaparecer ou tornar-se um fornecedor de segunda categoria.

Cada um destes ítens mereceria uma coluna inteira detalhando, mas meu propósido aqui é apenas lançar questões que considero fundamentais para nosso sucesso no futuro.

Em minha área de atuação – a pré-impressão flexo e gravação de clichês -, temos participado e constribuído muito para o aumento da qualidade e velocidade, redução de custos e busca da sustentabilidade, realizando pesquisas em cada uma destas áreas e procurando diariamente inovações tecnológicas e humanas que nos façam ir além.

E você? Já parou para pensar no seu negócio daqui 5 anos? 10 anos? Como será sua empresa em 2034? Se estas datas parecem muito longe no seu calendário e sua atenção está nos problemas imediatos que tem, lembre-se que nossa realidade de hoje foi criada há 10 ou 20 anos atrás.

O que você pensava em 1994? Lembra que o digital era um “sonho distante”? O que era futuro naquela época virou nossa realidade de hoje, e o que fizermos hoje será a realidade de um futuro que chegará muito, muito rápido.

Bons negócios!

Geraldo Fernandes (geraldo@fotograv.com.br)
Sócio fundador da Fotograv Fotopolímeros e especialista em matrizes para flexografia e dry-offset. Há 45 anos atua no segmento, é considerado um dos maiores experts do assunto no Brasil.